Completo. Lê-se de cima para baixo

8º dia – Sábado

Uma sacana duma melga atormentou-me e não consegui matá-la: safava-se com uma perícia incrível.
Aí pelo meio-dia, estive a cortar em pedaços uma parte do chouriço, do presunto, do queijo e da marmelada que levo, de modo a estarem mais acessíveis quando faço as refeições, embrulhando cada bocado de per si. Fiz uma bodeguice tremenda.
Na estrada, um alemão, com carro espanhol e que fala espanhol, levou-me 15 km. Disse que está um ano cá, um ano lá. Ficou admirado do meu pouco di­nheiro para 3 meses. Sim, saí de Portugal com 150 Francos, 100 Dólares e 7900 Escudos.
Era para ter ficado hoje em Marbella, ir à praia e conhecer aquilo melhor, mas vou só conhe­cer Torremolinos e, se for como Marbella, vou por aí acima disparado à procura duma razãozinha para viver. Aqui estou na estrada, a acabar de escrever o diário de ontem e o de hoje.
Aqui, Sul de Espanha, caem todos os privilegia­dos do Mundo. É impressionante como o sexo es­tá comercializado e, se tudo é sexo, aí temos uma sociedade empenhada em cada um ser mais rico que outro, esperançados em ter, a partir da riqueza, maiores privilégios sexuais. Tirem o sexo a estes gajos (capem-nos ou forneçam-lho à discrição) e esta bela sociedade de que os ocidentais tanto se gabam vem por aí abaixo sem haver revoluções.
Depois de muito tempo de espera, mudei de lo­cal e lá parou um casal alemão que me deixou muito perto do centro de Torremolinos.
Dei umas quantas voltas até arranjar dormida. Os donos de hostal têm um preço marcado, mas depois dizem outro preço que inclui banhos e pequeno-almoço. Enfim!
Lá fui dar a um local de apartamentos – uma série de casitas pequenas, voltadas para um pátio cheio de árvores – com um divã e uma casa de banho, banho à discrição e lavagem de rou­pa não proibida, como é nalguns sítios: 100 pesetas. Luxo não havia, mas era aconchegado.
Torremolinos está cheio de gente, com lojas por todos os cantos e bares e restaurantes e biscates, como aquele tipo que tem cartazes de corridas de toiros e os vende a pessoas cujo nome ele imprime no cartaz, entre o nome de El Cordo­bés e o de outros toureiros famosos. E as pessoas lá vão comprando, ou não fosse o nome próprio, das palavras que qualquer um mais gosta de ouvir ou ver escrito, neste caso associado a outra gran­de ambição das pessoas que é a fama, o ser conhecido e admirado, como o são os grandes toureiros. Outros, desenham o rosto de quem quer dar 500 ou 1500 pesetas, para preto e branco ou cor, respectivamente, em 30 minutos com a pessoa a posar, claro, ou por fotografia. Um deles que também pinta, mas outro género de quadros, agradou-me pela sensualidade que imprime às figuras femininas, repassando tu­do de simbolismos e interpretações de génese e morte, que apelam muito à meditação.
Enquanto escrevia ao Granja e ao Duarte – colegas de trabalho – bebi um canjirão de cerveja.
Com a vontade de falar bem espanhol, falo uma coisa que a mim me soa a italiano.

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