Completo. Lê-se de cima para baixo

16º dia - Domingo

Saí ao meio-dia. Boleia dum senhor inglês que ensina a sua língua em Valência. Levou-me até a 50 km de Valência – Cullera.
Depois dum café, mostrou-me uma revista pornográfica, com mulheres. Depois dessa, mostrou-me outra com homens. Disse que tem um apartamento ali numa praia e convidou-me para ir lá tomar uma bebida. Entretanto, disse que lá em casa é que tem umas revistas realmente pornográficas. E filmes que traz de Inglaterra e que ele tro­ca com os alunos, por outros que eles têm.
Disse que, às vezes, tem dado boleia a “hippies” que lhe fornecem “ash” (hax?) (haxixe). “Que mais pode querer um tipo, que estar em ca­sa fazendo amor, fumando ash, com uma bebida e boa música?”
Sem que a coisa estivesse bem definida, resolvi desfazer logo equívocos e disse-lhe que me não levasse a mal, mas que só iria se fosse só para uma bebida. É que estou farto de encontrar homossexuais. O tipo riu e disse que estava à espera da “girl-friend” dele, loira de 29 anos. O certo é que tínhamos passado já por vários penduras e, depois de eu dizer isto, ele parou para o 1º que apareceu, deixou-me um pouco mais à frente e seguiu com este. Era um tipo que tinha ido escalar uns montes por ali e trazia uma calça deitada a baixo. Ficou 1 km mais à frente.
Boleia, até Valência, do tipo mais simpático que encontrei em Espanha: natural, conversador, tolerante politicamente. O tipo é engenheiro e trabalha por conta própria. Inteirou-se das minhas posições políticas, criticou-as construtivamente e, depois, galhofámos todo o tempo, pois ele foi tentando construir umas frases em português, francês e inglês.
Boleia de 20 km, até Sagunto, de 2 putos porreiros em Fiat 600.
Levaram também um alemão, ao qual perguntei, que tal de homossexuais. Também encontrou muitos: em Sevilha, ou coisa assim, um tipo levou-o para casa e disse-lhe que tomasse banho, enquanto ele ia buscar uns amigos. Este, tomou banho e pirou-se. Outro, deu-lhe a direcção e o nome dum empresário de Barcelona, para que este entrasse num “show” de “strip-tease”, ou para tirar fotografias.
Ficámos no início duma auto-estrada. O alemão foi pela estrada normal e eu pela auto-estrada. Quero ir depressa. Começo a ficar farto de Espanha.
Boleia de 220 km até 8 km de Tarragona de um tipo que é representante de bolos secos e que todos os dias faz trajectos destes para fiscalizar as vendas e a distribuição.
Boleia longa e maçadora, e para mais começou a escurecer.
O tipo, às vezes, faz moto-cross e automobi­lismo, mas não tem vagar de entrar em provas consecutivas.
Que pena, um tipo tão novo e tão embrenhado no negócio, tão máquina de fazer dinheiro, tão pouco máquina de o gozar, com certeza.
Pedi boleia para Salou, praia do género Beni­dorm, o que significava virar para o mar e afastar-me da direcção que levo. Desisti e virei para Tarrago­na. Uma carrinha para transportar operários levou-me, pois o tipo pensou que eu era um deles.

Nada disso. Eu sou um tipo que não gosta de trabalhar, nem de fazer nada, a não ser uma tarefa da qual colha satisfação pessoal. Até a­gora, não encontrei. Primeiro, tenho de definir o que é e em que se baseia a minha satisfação.
Adiante.

Dei voltas e voltas a Tarragona, mas todas as pensões estavam cheias e as que tinham algo, era da ordem das 200 pesetas.
Ia a caminho duma em que tinham pedido 150, mas por um quartito reles, quando fui interpelado por um bêbado, que me ofereceu dormida. Disse que sabia o que era dormir debaixo duma ponte e ninguém lhe estender uma mão. É pedreiro, Benedicto de nome. Insistiu, mesmo depois de eu dizer que sabia onde dormir. Lá me levou por ruas e ruelas. Foi difícil chegar lá, pois enganava-se nas ruas.
O tipo tem um quarto com 2 camas, mas só paga uma. Então, disse que teríamos que entrar às es­condidas. Que figura!
Entrámos num prédio, subimos todas as escadas, até que ele se convenceu que nos tínhamos enganado no prédio. Voltámos a descer e, finalmente, lá encontrámos o prédio certo. A porta estava fechada. Entrou pelo bar anexo para pedir que lhe abrissem a porta, mas ficou a conversar.
Bem, resolvi ir à minha vi­da e fui a uma pensão que vi ali perto. Cheia.
Quando saí, vi o tipo cá fora. Achei que lhe devia uma explicação pelo meu desapare­cimento e fui ter com ele. O tipo, entretanto, en­trou pela porta já aberta e eu fui atrás dele. Encontrei-o já no 3º andar. Pediu-me silêncio e entrámos. Lá estavam as 2 camas, encostadas a paredes contíguas.
Quando nos estávamos a deitar, o tipo diz que está bêbado e por is­so lhe apetece “chupar-ma”.
Aí temos mais outro, disfarçado de bêbado chateado com a vida e fingindo dar algo sem nada esperar. Será que ninguém é capaz de dar, por dar?
Pediu por favor, que se ia arrepender amanhã, mas que lhe apetecia. Eu fingia que me ia le­vantar e vestir e ele voltava para a cama de­le, mas depois voltava à carga. Entretanto, ia dizendo que, se eu lhe fizesse mal ou lhe rou­basse alguma coisa, me matava amanhã. Finalmente, lá se ficou a ressonar.
Demorei um bocado a adormecer naquela situação estranha, para mais, tendo-me o tipo dito que, se aparecesse a dona da casa, eu me devia meter debaixo da cama, etc.
Hoje, andei 400 km.

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