Completo. Lê-se de cima para baixo

23º dia - Domingo

Ao meio-dia, fui dar uma volta à cidade, a que chamam “Ville Rose”. “Ville Rose”, porque as construções são à base de tijolos avermelhados, inclusive as altas ca­tedrais como a de St. Sernin, bastante bonita por fora bastante despida por dentro.

Eu já lera acerca desta catedral, a propósito do ouro lançado a um lago pelos sucessores do exército de Sigoveso o qual havia sido saqueado do templo de Delfos, na Grécia. Aquando do regresso, apa­receu a peste, que foi atribuída à vingança dos Deuses. Então, lançaram o ouro a um lago, que se pensa ter existido no subsolo da actual igreja. (!) Posteriormente, um general romano “sacou” o ouro, que pelos vistos também lhe trouxe desgraça, segundo a versão de Gerard de Sede, na obra “O tesouro cátaro”.

Nos arredores da catedral havia uma imensa feira de trapos sapatos e alimentos, muito frequentada por argelinos e portugueses, pelo que ouvi.
Vi a igreja dos Jacobinos, feiosa, a igreja Daurade, onde estão pintados dois milagres (relacionados com um tremor de terra e um incêndio, à primeira vista). O museu "des Augustins" estava fechado para obras. Voltei à catedral de St. Etienne, na qual me demorei a contemplar umas tapeçarias antigas, representando algumas lendas sobre a vida do primeiro bispo de Toulouse, S. Saturnino e outros tipos.

Pelas 16 horas ou mais, cheguei à saída da ci­dade e apanhei logo boleia para Bordeaux. Nada mau – 250 km. O tipo é um velho retornado da Argélia, novo na idade, pouco falador, estudante de medicina e que ia corrigindo o meu francês.
Ao longo de todo o trajecto, avistei imensas torres de igreja, bonitas do meu ponto de observação.

Era já noite cerrada quando chegámos a Bordeaux, que me pareceu e parece muito triste. A cor é a atirar para o cinzento muito escuro, à noite há poucas pessoas nas ruas e cafés e muitas prostitutas, vestidas com muito mau gosto, todas de calção ou saia no limite superior e botas altas.

Dormi por 17 FF e comi por 15, no mesmo local: Um pedaço de frango, acompanhado em quantidade por uma espécie de farinha granulada + grão + pepino cozido. Chamaram-lhe “Couscous”, de origem argelina. Aliás, isto à noite parece uma cidade de “argelinos”.

Estive a jogar matraquilhos, com um tunisino e um egípcio. Ambos servem numa casa de chá, que tem especialidades argelinas e um disse ganhar lá 150 FF ao mês, mais comida e dormida. Tão pouco? Será que teve medo que eu fosse algum fiscal de impostos?

Escrevi aos pais e ao Serra.

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